MESA REDONDA
6 de NOVEMBRO, 18h00, Auditório do MNSR
"A ARTE CONTEMPORÂNEA NO CONTEXTO IBÉRICO"
Com Bernardo Pinto de Almeida, David Barro, Fátima Lambert e Paulo Reis

faraway… so close

“Vocês não nos podem ver, não nos escutam, imaginam-nos tão longes e estamos tão próximo…”.

Estas palavras, tomadas como ponto de partida para a exposição, pertencem ao filme Faraway so close de Wim Wenders e são consequência daquele sucinto “continuará” que fechava o seu filme anterior Céu sobre Berlim. Neste caso, a selecção de um grupo de obras da colecção do Museu Pátio Herreriano de Valladolid a serem apresentadas no Museu Nacional Soares dos Reis do Porto, dá continuidade ao trabalho realizado em Parangolé. Fragmentos desde os 90 em Brasil, Portugal e Espanha. Incidindo na relação entre contextos tão próximos, ao considerarem-se as relações históricas e, neste caso, geográficas, como distantes e muitos outros aspectos que nos levam a ocasiões de desconhecimento mútuo. Se o filme de Wenders funcionava como reflexiva metáfora do contexto de um país e nascia de certo desencanto, a mostra Faraway… so close traduz ironicamente este conjunto de alegorias da experiência da arte e essa espécie de pano de fundo que, em muitos casos, se têm confrontado, no respeitante à Arte, nas relações entre Espanha e Portugal.

Efectivamente, há pouco mais de um ano, celebrava-se no Museu Pátio Herreiano de Valladolid a exposição Parangolé. Fragmentos desde os 90 em Brasil, Portugal e Espanha, que permitia contemplar um panorama de produção destes três países nas últimas décadas. Essa ambiciosa exposição, de grande amplitude, teve a virtude de estabelecer uma ponte intercultural e uma leitura compreensiva a partir dos notáveis fundos da colecção de arte contemporânea depositada no Museu, colocando-a numa comum relação e reflexão. Faraway… so close, referencia-se e deriva deste imperiosa necessidade de relação entre contextos que, embora tão próximos não deixam de ser, em muitos casos, desconhecidos, neste caso específico mostrando, pela primeira vez em Portugal, uma parte significativa dos fundos da colecção do Museu Pátio Herreriano.

Destaque-se que a colecção do Museu Pátio Herreriano foi criada a partir dos fundos da colecção de arte contemporânea e sua formação foi determinada por um critério histórico que permite o seguimento dos principais artistas e tendências da arte espanhola nos séculos XX e XXI. Na sua construção, optou-se por um percurso que respeita a sucessão dos principais acontecimentos da arte espanhola destes dois séculos. A colecção, que está patente, de forma permanente e temporária, nas salas do Museu Pátio Herreriano, tem agora oportunidade de se contextualizar, mediante novas exposições como esta, promovendo a arte realizada em Espanha, nesta circunstância, nas últimas três décadas.

Tal, e como se advertia, em Parangolé, a exposição Faraway… so close, permitirá ao púbico português revelar afinidades surpreendentes e divergências interessantes entre o que sucedeu nas últimas décadas em Espanha e o que aconteceu em Portugal nesse mesmo período. Na selecção apresentada valorizou-se a referência a toda uma nova geração de artistas que, desde há anos, tem vindo a estabelecer o novo cenário das artes visuais, sem pretender traçar ou definir um conceito de geração, nem tampouco um catálogo categórico do que tenha sido realizado. Optou-se, também, por incluir alguns artistas que continuaram a ser significativos no início da década de 70 e 80, o que se verifica ser fulcral para a compreensão dos discursos das décadas posteriores, como é caso de Cristina Iglesias, Pello Irazu, Antoni Muntadas, Luis Gordillo ou Juan Muñoz.

A partir destes artistas é possível entender como se tentou reflectir e desarticular a lógica da escultura e como a pintura já não pode ser entendida enquanto técnica, antes como tradição ou ideia sobre o próprio conceito de pintura, jogando com a capacidade de desdobramento (Gordillo), com os seus limites (Verbis), com a sua condição expansiva (Marty), ou encarnada (Aballi). Enquanto, na fotografia, além de ser uma derivação pictórica se constata, em muitos dos seleccionados, um enigma do vazio e do incompleto (Ballester, Belichón, Soto, etc…), tendência que tem continuidade no vídeo, onde se incide a dimensão performativa, em autores como Prego, Pitarch ou Sánchez-Castillo.

Nós, os comissários, pouco mais podemos contribuir senão procurando expor estas obras com o maior detalhe e respeito possível pelo universo de cada um dos artistas. Somos, simplesmente, mensageiros, como aquelas personagens de Wenders: “Não somos a luz, não somos a mensagem, somos os mensageiros, não somos nada: vocês são tudo para nós”. Ao espectador corresponderá, portanto, criar a sua própria história e dar uma espreitadela aguda, reflexiva, buscar perguntas que, em muitos casos, evitam uma resposta. Faraway… so close.